Lendo a última edição do Psiu!, indo para o trabalho nessa sexta-feira, 14 (de novembro de 2008), minha cabeça, já há algum tempo preguiçosa, foi atiçada uma vez mais a verter palavras em forma de texto. Impressionante! Fazia tempo que isso não acontecia: a agonia presa em um T3 chacoalhado e lotado, mãos e intelecto ávidos, sedentos, trêmulos até, eu diria! (tudo bem, às vezes eu me emociono e exagero mesmo! Afinal, se fosse assim, o pessoal no ônibus teria me socorrido – eu acho! – pois isso estaria mais próximo de um ataque epilético do que de uma efervescência mental!)
(Olho para a capa do Psiu! e não tenho dúvida: esse mal que me aflige é “culpa” do VULCÃO DEMENTE!)
“A educação e a ‘Solução para o Brasil” (Marcelo Duarte, 3º ano), “O Progresso é Frio Como Uma Navalha” (Bruno Graebin, 3º ano) e “Por que eu entrei para um chapa” (Samuel Eggers, 2º ano) fizeram meu pensamento correr em torno de perguntas, pulguinhas chatas, todas elas costuradas por uma questão maior: O QUE FAZ AS PESSOAS SEREM “BOAS”, “ÉTICAS”, “PENSAREM CRITICAMENTE”???? Foi só acabar de ler o último artigo citado, e essa pergunta me apunhalou de uma maneira tão honesta, tão pura, que chegou a doer, que chegou a fazer sangrar mais perguntas, mais angústias, mais choques contra paredes de pensamento, mais sinapses!
Bom, o Marcelo diz que mais educação não é a panacéia, não é a solução para todos os males do nosso país. Isso me parece óbvio, até (apesar de não ser). O que acontece é que, se pensamos em alguma prioridade para o país, salta aos olhos a educação como um meio de intervir de forma eficaz no comportamento dos cidadãos (futuros e contemporâneos) de um país, de uma cidade, etc (também não sou o que se possa chamar de “um patriota”, viu, Bruno?!). O Marcelo diz também que o ponto não é termos MAIS educação, mas pensarmos (e fazermos) uma educação melhor, diferente desta que existe hoje (não reproduzirei aqui novamente as críticas levantadas pelo colega). Ele chega a afirmar que pouco aprendeu nos seus 11 anos estudando em um colégio considerado de elite. Mas, pensemos: será mesmo? Será mera coincidência que justamente alguém que estudou num colégio assim e que hoje está numa Universidade federal venha criticar de maneira tão contundente a educação? Perguntei-me, no exato instante em que li as palavras do Marcelo, acerca da gênese de seu pensamento crítico e, em busca de respostas (elas nunca vêm a mim de maneira satisfatória; é f…!), considerei seu ambiente escolar como umas das variáveis explicadoras. Afinal, também será mera coincidência que a grande maioria da população, que se abancou e se abanca em salas de aula da rede pública, não chegue ao ponto de exercer uma capacidade crítica tão acentuada? Não me entendam mal, não quero defender a idéia de que colégios considerados de elite são a solução! Estou apenas compartilhando perguntas com vocês. Mas cheguei, sim, a considerar alguma idéia: a educação é sim muito importante! Educação essa que não se limita àquela formal (na verdade, a educação informal é que me parece aquela que mais “forma” pessoas críticas e reflexivas), mas que dela depende. Não defendo, repito, que a educação em nosso país deve continuar nos mesmos moldes; pensando bem, creio que todos que param para pensar de maneira séria e responsável a educação, chegam à conclusão de que ela pode melhorar muito.
Com relação ao texto do Bruno, a questão fica ainda mais difícil de ser respondida. Como formar pessoas com um perfil de reflexão ético apurado? Fica mais difícil de responder a essa pergunta porque os tais membros da comunidade científica enquadrados nas fileiras da SBPC são, provavelmente, oriundos dos tais “colégios considerados de elite” e, de maneira contrária, nosso “futuro cientista de verdade”, Bruno, (pelo menos que eu me lembre) veio de um colégio público! Pois então? Como respondemos satisfatoriamente às minhas perguntas? Outro exemplo sou eu, que estudei sempre em colégio público, estadual. Meu exemplo, aliás, traz mais um elemento para esse debate: pelo que pude verificar até hoje, nesses meus estreitos 27 anos, o processo de aprendizado (formal e informal, mas principalmente o segundo, que considero o mais importante – de longe! – em termos desse tipo de “formação” mais reflexiva, quiçá, filosófica) é contínuo ao longo da vida (penso que isso depende bastante do perfil da pessoa, por exemplo, da abertura à experiência, da vontade de aprender – com os outros, com os livros, em suma, com o que a vida proporciona). Claro que com seus incontáveis reversos e com atitudes que não respaldam tal aprendizado, já que temos de levar em conta que o comportamento humano não é tão previsível assim (pelo menos eu ainda não fui convencido do contrário!). Considero que aconteça dessa maneira porque mudei bastante nos últimos anos e tenho aprendido muito. Mas não foi sempre assim. Na verdade, parece que tais “descobertas” foram acontecendo paralelamente a um autoconhecimento. Pois é, agora só falta eu concluir que agir de maneira ética (não confundam com agir moralmente!), pressupõe reflexão e reflexão que muda a gente, que expande (ou seria mais adequado dizer “altera”?) não só nossa maneira de enxergar o que está ao nosso redor, mas também nossa maneira de enxergar a nós mesmos. É, acho que estou concluindo isso mesmo (ainda que com a vadia da certeza me olhando lá de longe – faz tempo que a gente não se fala!).
Estou escrevendo esse balde de palavras em condições um pouco adversas (em meio a atendimento a contribuintes – sim, eis aqui um funcionário público utilizando espaço e recursos públicos para escrever um texto totalmente privado, subjetivo (ou talvez nem tanto; talvez, esse amaranhado sirva ao bem comum, às cabeças de futuros e atuais psicólogos – confesso que isso deixaria minha consciência mais tranqüila!). Faz algum tempo que Moral e a Ética têm sido minhas angustiantes e preferenciais companheiras de reflexão. E como são arredias! E como exigem de mim e me fazem sentir vergonha e um sentimento de ignorância absurdo por vezes! Ainda tentando caminhar em meio à perigosa teia da Ética, volto ao tema levantado pelo Bruno em seu artigo. Será que agir eticamente se reduz a não fazer experimentos com animais? Será que não haverá cientistas-filósofos que defendem tal prática de forma deliberada, com ótimos argumentos e com uma visão muito clara da natureza, do ser humano, do mundo, após muitas reflexões? Será? Eu acho difícil, mas não posso deixar de me perguntar! Serão essas pessoas más? Como podemos classificá-las? Ou não podemos (sendo possível apenas julgar seus posicionamentos e suas atitudes)? Claro que depende do ponto de vista sob o qual as enxergamos. Há como escaparmos, qualquer um de nós, da “maldade” e de críticas? Acredito, sinceramente, que não! Mas acredito, de igual forma, que não se pode responder a isso com uma sentença relativista do tipo “se é assim, então, tanto faz!”. Penso que o agir eticamente se dá em níveis, num continuum. Isso não dá respostas prontas, não dá um manual com normas rígidas sobre o que é bom e o que é mau (algo que cheira mais à Moral), mas nos faz sairmos de nosso confortável estado de consciência fundamentado em alguma lei moral ou civil e partirmos em busca de soluções através de uma responsável e dialógica reflexão. E, quem sabe, esse seja o caminho (ou um deles) para formar/tornar pessoas críticas, melhores cidadãs, “boas”, “éticas” (realmente, parece muita presunção supor algo assim tão frágil e amplo ao mesmo tempo! Tem que ser meio Culau mesmo, pra isso! Brincadeirinha – afinal, o texto ta muito sério!).
Tendo iniciado a gestação deste texto na última sexta-feira, 16 de novembro de 2008, me encontro agora, num domingo de pança cheia e de muito silêncio. É nesse clima que confesso: o que me arrebatou, ao cabo da leitura do texto do Samuel (que fechava a edição do nosso querido jornal), foi a admiração a essas três pessoas que escreveram para o Psiu!. Foi daí que surgiu o fio condutor dessas questões. O texto do Samuel foi o arremate que fez a lava do vulcão despertar-me do ócio. É isso mesmo! Admiração a esses três colegas que escreveram os artigos que já citei, mas admiração também a um perfil de gente; perfil esse que me faz recordar alguns “DAPianos” mais antigos, como, por exemplo, o Mateus Daitx e a Cris P. (só pra citar dois!). Pessoas que me passam a muito subjetiva impressão de terem uma ação muito pautada pela reflexão ética (e não apenas ética) e que me transmitem uma incansável tendência (muito realizada) de atitude.
Existe receita para formar cidadãos desse calibre? Caso não haja, o que seria, então, aquilo que os fez e os faz serem assim? Algo mais os caracteriza? Bom… chegamos, por essa via tortuosa, demasiado perto da tentadora fuga (ou seria uma legítima explicação?): aspectos constitutivos de cada um, seus próprios organismos em interação com todos os estímulos apresentados ao longo da vida. Ou, reduzindo mais (bem mais!), essa “essência” se deveria aos genes? Ou, mais ainda, à “alma”? Não, não podemos cair nessa armadilha! Entretanto, a pergunta fica, continua, permanece, incômoda, incólume, perante vagos e tolos pensamentos.
Apenas para encerrar esse frenesi desvairado, manifesto desejo e manifesto falta. Desejo de ouvir e de ler mais sobre essas e mais questões suscitas pelo magnífico Psiu!. Falta: foi o tanto que ficou não-dito e que ficou, pior ainda, mal-dito, nesse momento de insanidade misturada com sensatez. Que o debate “Psíutico!” continue, eis minha prece, minha oração!
Fábio Vacaro Culau (provável jubilando em 2015).